O eterno apanhador

People always think something’s all true. (The Catcher, in chapter 2)

Perdemos o Salinger (1919-2010), na semana passada. Fico extremamente triste quando alguém muito bom da literatura morre; perdemos um pouco de poesia na vida. Mesmo que uma estrela se eternize, não vê-la brilhar mais entre as luzes cada vez mais artificiais da Terra, é triste. Quem não conhece o Salinger, é mais que hora de conhecer. Algumas pessoas adoram ler a obra de autores eternizados. Salinger sempre foi eterno.

Minha experiência com o Apanhador no Campo de Centeio começou ainda na faculdade. Li uma reportagem sobre  O Apanhador e, de início, duas coisas me chamaram atenção: a reclusão do autor e o fato de existir uma polêmica macabra em torno do livro (segundo a reportagem, ele teria sido encontrado nos aposentos de alguns dos psicopatas mais conhecidos da história). Depois, levei um tempo enorme para conseguir um volume porque, como ele fazia parte das leituras obrigatórias da grade curricular de algumas escolas norte-americanas, levava um tempão para se encomendar e receber uma cópia. No aguardo de uma versão em inglês, encontrei a tradução publicada pela Editora do Autor. A diferença entre o original e a tradução é significativa, porque o sentido de algumas palavras e expressões típicas do linguajar do jovem desolado e conflituoso se esvazia quando elas são traduzidas. Adorei o livro! Achei-o complexo, psicológico, triste, cáustico e voraz ao mesmo tempo. Holden Caulfield é o retrato universal do adolescente desesperado, mas certo do que não gosta ou do que não quer para si. Em sua fuga do colégio interno, vive, em um curto espaço de tempo, todas as emoções, as dúvidas e as certezas de ser adolescente. O livro poderia muito bem voltar-se ao universo puramente norte-americano, mas ele espraia-se e retrata o conflito árduo que consome as emoções e reações afetivas de qualquer jovem.

Mais tarde, adotei o livro como uma das leituras obrigatórias de meu curso de Leitura e Produção de Textos. A experiência foi ímpar. Vi, de repente, jovens adultos desvelarem seus próprios conflitos e amarem e odiarem Holden com tanta intensidade, ao ponto de criarem seus próprios Holdens. Daí, pude entender que existe mesmo um apanhador em cada um de nós. E existe um Holden e uma Phoebe, sua cumplicidade, exatidão, questionamento, cuidado e (pasmem) maturidade. O livro é muito sobre experiências e como tais experiências mudam a nossa perspectiva sobre a vida, as pessoas e as instituições.

Jerome David Salinger deixa uma vida longa (91 anos) e uma vasta obra, inclusive com alguns muitos títulos inéditos, pois dizia sempre “escrever para si próprio”. Na reclusão do gênio, vamos tentando encontrar nosso próprio campo de centeio, sempre nos perguntando onde estará o nosso apanhador?!

Parabéns, Salinger!

6 Comentários ↓

6 Comentários em “O eterno apanhador”

  1. sandra 06-02-2010 às 8:52 am #

    Não fiz a relação do autor com a obra, como é muito comum em se tratando de minha pessoa. Tenho dificuldade em decorar nomes, eheheh. Já ouvi muito falar desse livro, inclusive por essa polêmica em torno dos psicopatas. Todos diziam que era um livro do diabo e coisas do gênero. Na altura, nem consegui encontrá-lo para comprar, porque isso avivou a curiosidade de todos. Pelos vistos, o mundo literário perdeu um grande nome.

  2. Fernanda Sampaio 08-02-2010 às 6:50 am #

    Uma pena que ele se foi (fisicamente)…mas fica aí sua obrar vasta e rica, essa imortal!

    beijao amiga!

  3. Juliene 15-02-2010 às 10:33 pm #

    Uma pena mesmo! Para falar a verdade, tenho me perguntado o porquê da morte…

  4. Sonia Regly 19-02-2010 às 10:55 pm #

    Rosângela,
    Fiquei muito feliz com sua visitinha. Esse cantinho continua lindo e cheio de novidades e muita cultura.Parabéns!!! Me sinto muito honrada quando me visitas, adorei!!!!
    Beijinhos de verão

  5. Francine Ramos 21-02-2010 às 10:32 pm #

    Oi, Rô! Seu blog reformulado está ótimo, não que o outro não fosse, mas pequenas mudanças são sempre boas :)

    Eu ainda não li esse livro, mas sempre leio coisas bem positivas sobre ele. E agora, vindo de você, deu mais vontade de ler ainda. Vou colocá-lo na minha listinha de leituras para 2010.

    Um beijão!

Trackbacks/Pingbacks

  1. O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger | Fernanda Jimenez - 24-02-2011

    [...] mítico livro “O apanhador no campo de centeio” (original: The Catcher in the Rye   e em Portugal: À espera no centeio ou Uma agulha no palheiro) conta a [...]

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