No início deste mês, cumpri a promessa de levar uma de minhas adoráveis alunas, que nunca tinha ido ao cinema, para conhecer de pertinho o encanto da sétima arte, e esta “aventura” maravilhosa merece um post à altura. Tudo aconteceu assim: nos meses de abril/maio, ministrei aulas sobre Literatura, Imagem e Negritude, na Especialização em Literatura e Cultura Afro-Brasileira, na UEPB. Falamos sobre semiótica, semiose, semiosfera, intersemiose e seus meios, direcionando o conteúdo audiovisual para a representação do negro no Brasil e na cultura africana. Tão grande foi minha surpresa ao descobrir que, em meio às discussões que citavam o cinema de arte, de poesia e 3d como exemplos, uma parte dos alunos daquela sala nunca tinha ido ao cinema.

Minha relação com a sétima arte é fortíssima, principalmente de alguns anos para cá, em que venho pesquisando os efeitos da adaptação fílmica no espectador comum e no cenário da narrativa poética. Falar de cinema, de sua arte, de sua magnitude estética para quem tem apenas uma vaga ideia do que isso significa, é quase estranho, porque os críticos mais superficiais sempre colocam o fato de o cinema se encaixar na cultura de massa como algo que o descaracteriza como arte (e é por isso que não gosto muito de críticos), sempre apresentando-o como objeto estético inferior ao teatro. Salvo alguns destes críticos, o cinema foi inserido na cultura de massa, mas a minha questão sempre foi: até que ponto essa “massa” tem realmente acesso a ele?
É aí que aponto aqueles prováveis seis ou mais alunos do total de quase quinze que nunca entraram numa sala de cinema. Se o cinema é uma arte tão massificadora assim, por que então o acesso a ele é tão restrito? Por que será que falar de cinema ainda é um bicho de sete cabeças cabeludas? A resposta não é tão difícil assim, não é mesmo? Em um mundo capitalista como o nosso, o acesso ao cinema tornou-se também um ato de status econômico descabido. Ridículas são as pessoas que têm acesso econômico à grande arte e simplesmente nem sabem o estão fazendo lá. Os espectadores de cinema dividem a sala com uma maioria de seres dementes que vai ao cinema para passar o tempo, só porque pode pagar pelo ingresso caríssimo de uma sessão. Outro exemplo da derrocada da valorização do espectador de cinema foi o fechamento dos cines de arte e a transferência das salas para os shoppings. Tudo em um cinema de shopping subentende e pressupõe consumo. As salas estão lá porque temos que, inevitavelmente, interagir com as lojas, com os restaurantes, com a fast-food… Ai, que tormento caótico é ir ao cinema no fim de semana, quando os seres-dementes-de-poder-aquisitivo-elevado decidem ir todos ao mesmo lugarzinho do encontro para conversar besteira e bagunçar a paz de quem é realmente espectador.
É aí que entra a minha promessa e como ela foi meticulosamente pensada. O Jon e eu tínhamos uma aluna em comum; ela fez graduação com ele e especialização comigo. Ela era uma das pessoas que nunca tinham ido ao cinema em toda a vida e prometi levá-la para uma apresentação especial da sétima arte. Pensamos no dia que iríamos levá-la; o fim de semana estava descartado, porque claro eu queria que ela também tivesse uma boa impressão dos espectadores de cinema. Fomos em 5 de outubro, ver Comer Rezar Amar, com a Julia Roberts, uma escolha bem pessoal mesmo, porque acho que quando se vai ao cinema pela primeira vez tem que ser em grande estilo, e ninguém melhor do que a Pretty Woman como anfitriã. Chegamos cedo, compramos o ingresso e aguardamos o sinalzinho verde para entrarmos na sala. Acredito que eu estava mais nervosa do que a minha aluna, cheia de pequenas caraminholas na cabeça: e se ela não gostar? E se tudo for uma decepção? E se a minha tão amada grande arte não surtir nenhum efeito de magia e magnitude? E se a fita falhar? E se a Julia Roberts não for mais uma linda mulher (que coisa impossível!)… caraminholas a parte, eis que entramos na sala e estava tudo perfeito: o público não era dos melhores, mas ao menos se comportava direitinho; a sala era a maior de todas do complexo, o que deixaria a Julia Roberts ainda mais alta, ainda mais loura, ainda mais linda; a música clássica que antecede o início dos trailers estava tocando neste dia (fazia tempo que eu não ouvia mais essa musiquinha). Quando o filme começou, ouvi minha aluna sussurrar para mim e o Jon: “Não falem comigo, pois não quero perder nada do filme”.
Ai, nem consigo descrever a felicidade de ver como a sétima arte encanta e permanece. Eu ouvia a respiração da minha aluna, quase imperceptível, as vibrações com as descobertas da personagem da Julia, sem falar no “AHHHHH!! Ela continua linda!!!” quando a atriz apareceu no filme pela primeira vez. Os olhinhos brilhavam, as mãos estavam frias (e não era só o ar-condicionado) e cada percepção, cada minuto era colhido como flores que se abrem ao sol da manhã. A minha sétima arte! Abençoada seja!!! Proporcionou a uma nova espectadora toda a magia que lhe compete. E nem sentimos o tempo passar.
Depois, ela enviou mensagens de agradecimento e revelou seu amor verdadeiro pela sétima arte. Mas fui eu que agradeci a ela, pela experiência ímpar de poder revelar um mundo novo, de brilho e alegria, de compartilhamento de emoções, de apetrechos estéticos e utensílios de arte. Okay, alguns dirão que o fiilme nem é lá essa coisa toda, mas vou dá um desconto pois afinal eu sou sim uma fã da Julia Roberts :p
A ti, minha amada sétima arte, uma especial reverência, por fazer emocionar e encantar. Ganhaste, assim, mais uma fiel espectadora!!!









Rô, minha amiga, que depoimento impressionante esse teu! Fiquei emocionado aqui, como se estivesse mesmo assistindo um filme, rsrsrs
Parabéns pela iniciativa digna com sua aluna e pelas palavras tão ternas e elegíacas ao nosso amado cinema. Um dia também nos conectamos por causa de um filme, né?… É lindo demais ver coisas assim, que passam a fazer parte da história que os filmes viverão em nossos corações e memórias.
O filme em questão não é mesmo grande coisa, mas estou contigo no desconto pela Roberts, de quem também sou fã, aqui super bem iluminada e emoldurada pela projeção.
Espero um dia prestigiarmos uma sessão juntos…
Beijo, em reverência,
nando
Que bela iniciativa a sua Rosângela! Nada do melhor do que a aprendizagem para se descobrir um mundo novo! Fiquei feliz em saber que os alunos que ainda não conheciam o cinema pasaram a conhecer e descobri-lo com os seus edutivos olhos! Parabéns, querida!
Ah, que post lindo! Eu não lembro quando foi a minha primeira vez no cinema. Tudo porque desde criança eu assistia filmes com meu avô. Ele é fã de cinema e tem em sua casa um cineminha no fundo do quintal, nada chic, tudo bem amador, mas é mágico: projetores velhos, um telão meio amarelado e várias prateleiras recheadas de rolos de filmes… eu amo aquele espaço! Passei a minha infância vendo filmes de terror trash, os grandes clássicos, alguns infantis… Amo, amo! Acredito que eu não lembre da minha primeira vez num cinema porque o cinema simples do meu avô sempre foi mais especial que uma sala cheia para assistir um campeão de bilheteria. Em todo caso, cinema é cinema e tenho certeza que um novo horizonte foi aberto para a sua aluna.
Beijos!
Linda declaraçao de amor ao cinema! Também amo e vou quase todas as semanas, porque o prazer de sentar em frente ao telao nao perco nao.
Na minha época de professora no Brasil também levava meus alunos ao cine, a maioria nunca tinha ido também. Nunca esqueço que teve um festival de Chaplin num centro cultural da cidade, e fiquei com temor que eles nao fossem gostar (cinema mudo). Lembro que ficaram com os olhos pegados na tela, fascinados. Foi uma experiência bonita, como essa sua.
Na gostei do livro nem do filme “Amar, comer, rezar”. Só “despertei” no cinema quando tocaram as músicas brasileiras…nao sei…faltou algo.
Quando vi a entrevista da Gilbert na Oprah, todos as pessoas que haviam lido dizendo que havia mudado as suas vidas depois de ler o livro, fiquei impressionada e quis saber o que tinha no livro.
Nao achei “corajoso” nem “espetacular” o que ela fez, porque eu acho que fiz igual ou até pior. Divórcio de um casamento “abastado”, emprego seguro deixado pra trás, viagem pro exterior, entregar- se a outro amor que todos diziam que nao iria dar certo, etc…nada disso é novidade pra mim, entao nao achei muita graça. Enfim, me pareceu monótono.
Beijao querida!
Adorei.
Menina, é incrível, né, como isso ainda é uma realidade. Ainda há pessoas que nunca entraram em um cinema e, o mais triste, é que foi por falta de opção. No interior da Paraíba, como acredito que tenha sido o caso, deve haver muitos seres desses. É uma vergonha a arte e a cultura ainda serem considerados supérfluo. Como já diziam os Titãs:
“A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…
A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…”